Pacote anticrime: A caneta azul falhou

A opção do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por manter a figura do juiz de garantias na redação final da Lei originada pelo pacote anticrime do ministro da Justiça, Sergio Moro, escancarou a crescente crise entre o bolsonarismo “raiz” e a parcela da sociedade que tem na luta contra a corrupção sua principal bandeira.

A publicação do texto em edição extra do Diário Oficial da União transformou o feriado de Natal em dia quente na política nacional e resultou em fortes ataques ao mandatário da República por parte de membros da própria base. Por outro lado, o chefe do Executivo foi elogiado por parlamentares de esquerda, como o deputado federal Marcelo Freixo (Psol-RJ), que ajudaram a formular a ideia de que o juiz que toca o processo penal não deve ser o mesmo que julga.

Sempre cuidadoso com as palavras, Moro  externou sua insatisfação com a atitude do titular do Palácio do Planalto em postagens no Twitter. O ex-magistrado pontuou que o texto final projeto pelo qual lutou com insistência durante seu primeiro ano como ministro não é “o dos sonhos”. E completou: “Apesar disso, vamos em frente”.

A crítica pouco velada de Moro ganhou o apoio de outros pesos-pesados do lavajatismo, como o coordenador da força tarefa da Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol, que retuitou reclamações ao juiz de garantias. Além do juiz federal do Rio de Janeiro Marcelo Bretas – o magistrado considera que a novidade tira “eficiência e celeridade” da Justiça.

Como pólvora no ambiente inflamável das redes sociais, a polêmica já respingou em outros ministros: o da Educação, Abraham Weintraub, que, no que depois afirmou ser engano, postou comentário de um youtuber de extrema-direita que chama o presidente Bolsonaro de traidor por ter sancionado o texto; e o advogado geral da União, André Mendonça, que está sendo apontado por influenciadores digitais como idealizador da manutenção do juiz de garantias.

Atingido por aliados, Bolsonaro se manteve silencioso sobre o tema num primeiro momento – assim como seus defensores. Passado um dia inteiro de críticas, não apareceram defesas efusivas da atitude dele nas redes, até porque boa parte da base ainda busca entender o que está acontecendo.

Em manifestação que não cita o tema diretamente, o deputado federal e filho do presidente, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), ensaiou uma defesa alegando que a “nova esquerda”, que é como a turma chama os apoiadores que se viram contra Bolsonaro, “tenta emplacar outra narrativa” e afirma que estão tentando culpar seu pai por algo que tem como responsável “outro poder”.

A verdade, porém, é que os bolsonaristas – especialmente os mais lavajatistas – esperavam do presidente o uso da tão propagandeada “caneta Bic”. (Metrópoles)

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